quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Mistério Pascal DE JESUS

Nova "Communio" é dedicada ao Mistério Pascal
“O Mistério Pascal” é o tema da mais recente edição do segundo número de 2010 da “Communio”, revista internacional católica.
Henrique Noronha Galvão, diretor desta publicação trimestral, e M. da Graça Pereira Coutinho assinam a apresentação, que reproduzimos seguidamente.
«O Mistério Pascal constitui o centro de toda a vida e missão de Jesus, para o qual todos os mistérios da sua vida convergem. É pela páscoa, pela passagem da morte à nova vida de ressuscitado, que Jesus realiza plenamente a reconciliação de todos os homens com Deus e entre si. E assim que se dá a salvação daqueles que Deus criou para O alcançarem na plenitude da felicidade para eles reservada, mas da qual a soberba os afastara desde o início da sua história. A abundância do pecado porém dá ocasião, por Jesus Cristo, à superabundância da graça (cf. Rm 5,20) a que se acede pela fé.
A este mistério, cuja importância central foi por vezes esquecida, é dedicado o presente número da Communio no contexto da série dos mistérios da vida de Jesus.
ImagemJesus prepara-se para lavar os pés aos seus discípulos. Palma Giovane
José Tolentino Mendonça apresenta-nos o episódio de Emaús como um verdadeiro laboratório da fé pascal, em que os discípulos percorrem o caminho que leva da Jerusalém pré-pascal à Jerusalém pascal. Este percurso consiste na passagem do desejo de ver ao desejo de crer em Cristo Ressuscitado, e implica o acolhimento de Jesus não já como um forasteiro mas como o anfitrião que reparte o Pão e convida a partilhar a sua vida. Para o Autor, a hermenêutica pascal supõe Emaús na medida em que implica "o regresso ao Caminho, à Palavra e à Mesa da fração do Pão": "A sequência dos gestos de Jesus à mesa atesta que Ele não só toma o pão como se dá naquele pão, num gesto que reenvia para a dádiva total, na hora máxima da cruz."
ImagemÚltima Ceia de Jesus com os discípulos. Jaume Huguet
O Sábado Santo, e nele a descida de Jesus aos "infernos", constitui um aspeto fulcral da teologia do Mistério Pascal em Hans Urs von Balthasar. Paolo Martinelli expõe os aspetos fundamentais da perspetiva balthasariana sobre este tema. Confere particular destaque ao horizonte trinitário em que acontece todo o Mistério Pascal, explicitando depois a dimensão salvífica dessa descida à região dos mortos como expressão maior da solidariedade de Cristo com todos os homens, mesmo com os que desceram ao abandono extremo, "lá onde o Pai não pode ser encontrado". A descida de Jesus aos infernos é, numa imagem tipicamente balthasariana, Deus que abraça a humanidade "a partir de baixo": "aquela obediência até à morte de cruz, na qual em Cristo Jesus se constitui a nova e eterna aliança". O que não dá um conhecimento certo acerca da salvação de todos os homens nem anula a responsabilidade de cada um, mas legitima uma esperança fundada no gesto extremo de Jesus.
ImagemTintoretto
Gérard Rémy, inspirando-se num outro teólogo já falecido, François-Xavier Durrwell, explica-nos o sentido profundo da morte de Jesus Cristo à luz da ressurreição. Ela surge, então, como a expressão última da obediência filial de Jesus em que se realiza, no âmbito da sua humanidade, a "geração na morte" do Filho de Deus, a consumação final do ser filial de Jesus pela força do Espírito: "O paradoxo do Espírito de amor é realizar a comunhão a partir da separação, aliar a proximidade e a distância. É deste modo que o Pai gera o Filho, mas na morte aceite para ser vencida pelo poder do seu amor personificado pelo Espírito."
ImagemJesus reza, em agonia, no Jardim das Oliveiras, antes do processo que o levará à morte. Duccio di Buoninsegna
E que dizer da tristeza de Jesus no Getsémani? Na exegese de St. Ambrósio de Milão (séc. IV) sobre esta passagem dos evangelhos, Giorgio Maschio sublinha a sua grande profundidade inserida na tradição eclesial anterior. Trata-se de entender Jesus como Deus que assumiu verdadeiramente a nossa humanidade, partilhando da nossa condição com todos os seus afetos para assim nos trazer a salvação. Diz St. Ambrósio: "... ele teria sido para mim de menor proveito, se não tivesse tomado sobre si os meus sentimentos. Por isso é que se entristeceu por mim, ele que não tinha nenhum motivo para se entristecer por si próprio; e, posto de lado o gozo da eterna divindade, experimenta o tédio da minha enfermidade. Ele tomou sobre si a minha tristeza para doar-me a sua alegria, e desceu com os nossos passos até à angústia da morte, para nos fazer voltar à vida com os seus passos."
ImagemEcce Homo (Eis o Homem): Jesus, depois de flagelado e coroado com uma coroa de espinhos, é apresentado ao povo. Hieronymus Bosch
No artigo “Celebração litúrgica do Mistério Pascal”, Carlos Cabecinhas descreve a evolução do conceito de mistério pascal desde os primórdios do Cristianismo até à atualidade. Realçando a sua centralidade em todo o culto cristão, sublinha em particular o Tríduo Pascal, apresentado como uma unidade, um único conjunto celebrativo, centro de todo o ano litúrgico. Mais do que isso, numa palavra de L. Bouyer: "Todo o culto cristão não é mais do que uma celebração contínua da Páscoa". E numa outra formulação, também recordada neste artigo, João Paulo II afirma que "a liturgia da Igreja... tem como função primária reconduzir-nos a percorrer incansavelmente o caminho pascal aberto por Cristo, no qual se aceita morrer para entrar na vida".
ImagemJesus carrega a cruz a caminho do Calvário, onde será crucificado. Andrea di Bartolo
No que respeita à celebração do lava-pés, quer na liturgia do Tríduo Pascal quer na tradição beneditina, Olivier Quernadel considera que ela permanece um tesouro escondido. Terá ela, de facto, ainda sentido para a mentalidade de hoje? O Autor defende a necessidade de redescobrir o seu significado profundo de cuja atualidade não duvida. O lava-pés é expressão de um serviço humilde e recíproco, única forma de viver o amor e a fraternidade segundo o ensinamento e exemplo de Jesus Cristo.
ImagemJesus cai. Raffaello Sanzio
Em “Memória passionis. Breve leitura de Johann Baptist Metz”, João Duque apresenta a leitura do Mistério Pascal proposta por Metz. Estabelecendo uma ligação profunda entre a memória do Mistério Pascal e a memória do sofrimento dos homens, em particular dos inocentes, Metz chama a atenção para o perigo da amnésia cultural a que hoje se assiste e, consequentemente, para a importância de fazer memória. Mas João Duque deixa uma interrogação: "Como pensar, neste contexto, a força presente do amor que dá a vida pelo outro, precisamente na medida em que é um amor que sofre com o sofrimento do outro inocente? Não poderá ser a força desse amor, porque força de Deus-amor, precisamente aquela que dá força à memória e à esperança e, por isso mesmo, constitui o princípio salvífico universal, sobretudo para as vítimas inocentes?"
ImagemMatthias Grünewald
Em “A Última Ceia de Leonardo”, Timothy Verdon situa esta obra do pintor renascentista no contexto em que foi concebida ao ser destinada ao refeitório de um mosteiro, o que desde logo lhe imprime uma intenção clara de apelo ao compromisso de radicalidade de vida cristã assumido pelos monges. Percorrendo diversos sentidos subjacentes a esta pintura, Verdon, no âmbito do seu objetivo de caráter teológico-espiritual, destaca especialmente a dimensão psicológica, de interioridade, patente particularmente na figura de Cristo, dimensão que confere a esta pintura uma expressividade invulgar.
ImagemSepultamento de Jesus. Fra Angelico
À maneira de Depoimentos, foi recolhida uma série de vivências do Tríduo Pascal, segundo práticas que se distribuem pelas cidades do Porto e de Lisboa, e nas regiões do Alentejo, Algarve e S. Miguel nos Açores: “O ‘Compasso’, forma popular de celebrar a Páscoa (Manuel A. Ribeiro); “O Tríduo Pascal na Paróquia de Santa Isabel, Lisboa” (Maria C. de Lobão); “As Endoenças na aldeia de Safara” (António M. Aparício); “Procissão das tochas floridas. São Brás de Alportel” (José Cunha Duarte); “Os Romeiros” (Duarte Melo Ribeiro).
ImagemRessurreição. Piero della Francesca
Servem estes textos para documentar a importância, por um lado, da iniciativa e criatividade pastoral de párocos empenhados em que as comunidades cristãs tomem consciência da centralidade do Mistério Pascal na vida da Igreja e de cada um dos fiéis e, por outro lado, de toda a riqueza de uma religiosidade popular que mantém viva a memória dessa mesma consciência através de práticas por vezes muito antigas.
ImagemS. Tomé coloca o dedo na ferida aberta de Cristo, comprovando que o Ressuscitado é o mesmo que foi crucificado. Caravaggio
Na secção Perspetivas, são apresentadas Notas sobre a II Assembleia Especial para a África do Sínodo dos Bispos, redigidas por Pedro Bravo que acompanhou de perto o seu decorrer. Adotou como título, de modo sugestivo, a expressão África! Acorda, levanta-te e anda, inspirada no texto de Atos dos Apóstolos 3,6 em que Pedro fez um primeiro milagre em nome de Jesus ressuscitado. Procura, assim, traduzir a temática a que o Papa Bento XVI quis subordinar esta reunião dos principais responsáveis da Igreja do continente: A Igreja em África ao serviço da reconciliação, da justiça e da paz: "Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo" (Mt 5,13.14). E sublinha um aspeto fundamental do modo como decorreu essa Assembleia: "...os bispos africanos, mesmo ao falar dos seus males, nunca perderam o sentido de humor e conseguiram ser sobretudo positivos, promovendo a esperança, reafirmando a opção pela vida, realçando as experiências de reconciliação, de promoção humana e de progresso bem sucedidas no continente, e apelando ao enorme arsenal de experiência humana, sabedoria milenar e valores culturais do continente africano, os quais, purificados, confirmados, robustecidos e radicalizados pelo Evangelho, podem ajudar os povos africanos a reencontrar a sua identidade e enveredar pelo caminho que favorece a reconciliação, a justiça e a paz."»

Henrique Noronha Galvão, M. da Graça Pereira Coutinho
In Communio, Abril/Maio/Junho 2010
19.11.10

BENTO XVI – UM DISCÍPULO DE EMAÚS

pope-benedict-xvi
No Consistório das 11h da manhã de 11 de fevereiro de 2013, os Cardeais convocados pelo Papa tinham como agenda a aprovação de três canonizações: duas latino-americanas e os Mártires de Otranto, na Itália, vítimas dos turcos. Esses mártires impressionam pela coragem e pelo número: 800 santos, praticamente todos os moradores de Otranto que preferiram a morte cruel a abandonar a fé cristã.
Canonizações aprovadas e a surpresa: Bento XVI anuncia que deixará o ministério petrino às 20h do dia 28 de fevereiro próximo.
Houve renúncias de Papas, a mais significativa sendo a de São Celestino V, papa de 29 de agosto a 13 de dezembro de 1294. Era um velho e santo monge, há mais de 60 anos vivendo nas montanhas como eremita, no silêncio e na oração. O Conclave que o elegeu durava 27 meses, pois os Cardeais não entravam num acordo. Celestino não chegou a Roma, fixando-se em Gênova.  Dentro do palácio construiu uma pequena cela de palha para prosseguir como monge. Isso não poderia continuar, pois os problemas se acumulavam e o Papa não tinha nenhum apetite de governo. Nessa hora o espertíssimo e inteligente Cardeal Caetani foi conversar com ele e convenceu-o à renúncia. Em seguida o próprio Caetani é eleito Papa, com o nome de Bonifácio VIII.
O povo estava felicíssimo com a eleição de um monge espiritual para Papa. Existiam até profecias de que, com um papa espiritual, teria início a Igreja do Espírito, uma Igreja sem instituições visíveis. Celestino V seria esse homem da Providência. Ao renunciar, e indo de volta ao mosteiro, formou-se imensa procissão para acompanhá-lo, procissão que esperava um tempo novo para o cristianismo. Bonifácio VIII, muito esperto, deu um jeito e prendeu Celestino V, que ficou muito feliz podendo viver como monge numa cela. Morreu em 19 de maio de 1296 e foi canonizado 17 anos depois, mas com o nome de São Pedro Morrone.
Bento XVI tomou a decisão de renúncia pelo mesmo motivo: o amor incondicional à Igreja de Jesus Cristo. Suas forças definham visivelmente. João Paulo II decidiu ser Papa até os últimos dias, assumindo o ministério da Cruz pela Igreja. Bento XVI escolheu o caminho da renúncia humilde, silenciosa, no pleno domínio de suas condições humanas e intelectuais. Todos os papas são sucessores de Pedro, cada um a seu modo.
O polonês João Paulo II, em 1978, iniciou o pontificado pedindo que o mundo abrisse as portas a Cristo, que não tivesse medo do Senhor. Era um novo Moisés, cheio de energia e vitalidade, assumindo o encargo de conduzir o Povo cristão ao Terceiro Milênio. O alemão Bento XVI assumiu apresentando-se como humilde servidor da vinha do Senhor. Era um ancião, um grande teólogo, um pastor como Jesus e pescador como Pedro.
O Papa não tomou a decisão da renúncia (um ato pessoal e livre, sem necessidade de aprovação) em meio a tumultos na vida eclesial, a grandes problemas, o que não seria de seu caráter e postura de homem de fé. Enfrentou a questão da pedofilia nas fileiras clericais e religiosas, aceitou logo a renúncia de bispos com problemas, tomou decisões duríssimas no tocante à vida interna da Igreja e de congregações religiosas, sem receio de expor ao mundo as feridas do corpo de Cristo, as fraquezas daqueles que deveriam ter sido fortes. Não deixa em Testamento uma Igreja vitoriosa, mas deixa o testamento da luta pela verdade do Senhor, sempre. Nada nele inspirou o sonho de uma Cristandade revivida, não o impressionavam os números de católicos, e sim, os discípulos de Cristo.
papa-bento-xvi-

Fica conosco, Senhor

Seu lema papal foi: Cooperatores veritatis – Colaboradores da Verdade. E a Verdade não é uma teoria, um código moral: é uma pessoa, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Essa foi sua missão, e é a missão dos cristãos.
Para quem acompanhou o teólogo, mestre espiritual, sacerdote e cardeal Joseph Ratzinger, leu os textos de Bento XVI, uma imagem aparece como pano de fundo: os Discípulos de Emaús. Muitas vezes escreveu e falou sobre esse encontro entre os dois homens que retornavam a Emaús e se encontraram com o Senhor, mas sem reconhecê-lo (Lucas 24, 13-35). Jesus explicou-lhes as Escrituras e entrou na casa deles. Ao partir o Pão, eles o reconheceram. E Jesus continuou seu caminho.
Bento XVI insistiu – e insiste – na realidade de que as pessoas e comunidades cristãs nascem da audição da Palavra de Deus e da Eucaristia. Ele presidiu a dois Sínodos com esses temas fundantes da fé cristã. Numa entrevista, o então Cardeal Ratzinger afirmava que o Cristianismo não é a fé dos números, das grandes instituições e organizações, mas a fé dos discípulos, daqueles que, após um encontro pessoal com o Senhor, decidem por segui-lo e anunciá-lo.
Naquele dia, na viagem de Jerusalém a Emaús, anoitecia. Os discípulos pediram ao Senhor: “Fica conosco, Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando”.
Em seu último aniversário, o Papa se referiu ao fato de estar chegando ao limiar da existência. Humilde e confiantemente pede ao Senhor que fique com sua Igreja: “Fica conosco, Senhor”, pois percebe que, para ele, a noite vem chegando. Não a noite das trevas, mas a noite que revela a Luz sem ocaso.
Pe. José Artulino Besen

O COLÍRIO DA FÉ E A LUZ DO MUNDO

Vitral-Elia-Kurzum-Jordania
«Vem, Senhor Jesus» (vitral de Elia Kurzum – Jordânia)
«Realmente o Senhor faz os cegos verem. Os nossos olhos, irmãos, são agora iluminados pelo colírio da fé. Para restituir a vista ao cego de nascença, o Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra. Ele misturou sua saliva com a terra: E a Palavra se fez carne e habitou entre nós».
(Jo 1,14 – Santo Agostinho, Tract. 8-9).
Essa palavra de Santo Agostinho é muito apropriada para iniciarmos o tempo do Advento, no qual esperamos a vinda do Senhor em Belém e sua vinda gloriosa no final dos tempos. É tempo para purificarmos nossa visão, limpar nossos olhos com o colírio da fé a fim de sermos capazes de discernir entre o olhar do mundo e o olhar de Deus.
O olhar segundo o mundo nos priva da liberdade e da subjetividade, pois nos quer como multidão arrastada pela moda, pelo consumismo, pelo prazer. Quanto menos vivermos a liberdade dos filhos de Deus mais seremos vítimas dos arrastões de comportamento que nos levam ao individualismo, proposto como verdadeira inteligência: “eu gosto, então é verdade”.
A vida em comunidade, que é comunhão de pessoas, permite-nos olhar a história pessoal e do mundo de forma solidária: “é bom para meus irmãos e para mim, então é caminho de verdade”. Dessa forma, eu não sou ameaça a ninguém, nem sou ameaçado por alguém, não sou “vaquinha de presépio”, mas pessoa em diálogo com pessoas.
O colírio da fé, necessário no Advento, abre nossos olhos para contemplarmos o olhar divino sobre a história: Deus, ele sim, o Criador e Pai, oferece-nos a palavra que gera comunidades: o amor que se multiplica no amor fraterno, materno, filial, esponsal, nunca um pervertido amor interesseiro cuja origem e destino são o meu egoísmo.
O mundo faz o ego agigantar-se, e se gloria disso, enquanto que o amor faz-me pequeno para que possa crescer com todos, partindo dos mais frágeis, numa felicidade que é gerada no sentir minha capacidade de ver o outro a partir de Deus, da comunhão de vida.
Os meios de comunicação são pródigos em apresentar e propagar os egos de artistas, de pretensos intelectuais, como modelos de vida e de comportamento, a oferecerem respostas para tudo em meio a um balé executado ao som de cretinices e pseudo-soluções. Quanto mais escandalosa a resposta, mais animado o bailado. Apresentam resultados de pesquisas como se fossem revelações divinas, numa moda traiçoeira que leva os ingênuos a julgarem que, se a maioria aprova, então está certo. Os dogmas da fé são apresentados como frutos do passado ingênuo e são substituídos por outros dogmas, bem mais exigentes, porque nos colocam na moda: os dogmas das estatísticas, das pesquisas.
O dado matemático suplantou o dado revelado. Deus é excluído da vida e, como não se vive sem algum deus, seu lugar foi ocupado pelo deus do palpite, do vazio interior. Não o Deus que se revela na História humana e cósmica, mas o deus dos prazeres que duram pouco mais que um dia e logo dão lugar a outros. Hoje como ontem: no lugar de Deus que o libertara da escravidão do Egito, o povo de Israel adorou um bezerro feito de ouro. E cantou e se divertiu e blasfemou, esquecendo de olhar as serpentes venenosas que se aproximavam para picá-lo (cf. Êxodo 32, 1-35; Números 21, 4-9). A beleza da serpente escondia seu veneno.

A Palavra de se fez carne

Para curar o cego de nascença, Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra, explicou Agostinho. Ele misturou sua saliva com a terra: para que a cegueira fosse vencida, o Senhor uniu a divindade com a humanidade e, desse modo, o homem recupera a luz de seus olhos unindo a terra ao céu, o divino ao humano e, foi para isso que a Palavra se fez carne e habitou entre nós, para recuperar nossa imagem e semelhança, criando a comunhão Deus-Terra-Homem.
O tempo do Advento é o tempo da memória, tempo da invocação, tempo da espera do Senhor. Memória do que o Senhor realiza pela nossa salvação, invocação para que venha em nós e em toda a criação, espera feliz de sua chegada hoje e na consumação dos tempos, quando virá cheio de glória para julgar os vivos e os mortos.
Não devemos achar que o mundo está bom, que nossa vida já é boa o suficiente. Queremos muito mais, porque o Senhor oferece bens muito superiores e, acima de tudo, queremos que ele venha manifestar sua glória entre nós, conforme sua promessa.
Marana thá! Vem, Senhor! é a mais antiga oração cristã e está inserida na Liturgia eucarística logo após a consagração das espécies: o Senhor vem, e pedimos ainda mais, que venha sempre.
À pergunta “quem é o cristão?” São Basílio Magno responde para nós: “O cristão é aquele que permanece em vigília a cada dia e a cada hora, pois sabe que o Senhor vem”.
Pe. José Artulino Bese

O COLÍRIO DA FÉ E A LUZ DO MUNDO

Vitral-Elia-Kurzum-Jordania
«Vem, Senhor Jesus» (vitral de Elia Kurzum – Jordânia)
«Realmente o Senhor faz os cegos verem. Os nossos olhos, irmãos, são agora iluminados pelo colírio da fé. Para restituir a vista ao cego de nascença, o Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra. Ele misturou sua saliva com a terra: E a Palavra se fez carne e habitou entre nós».
(Jo 1,14 – Santo Agostinho, Tract. 8-9).
Essa palavra de Santo Agostinho é muito apropriada para iniciarmos o tempo do Advento, no qual esperamos a vinda do Senhor em Belém e sua vinda gloriosa no final dos tempos. É tempo para purificarmos nossa visão, limpar nossos olhos com o colírio da fé a fim de sermos capazes de discernir entre o olhar do mundo e o olhar de Deus.
O olhar segundo o mundo nos priva da liberdade e da subjetividade, pois nos quer como multidão arrastada pela moda, pelo consumismo, pelo prazer. Quanto menos vivermos a liberdade dos filhos de Deus mais seremos vítimas dos arrastões de comportamento que nos levam ao individualismo, proposto como verdadeira inteligência: “eu gosto, então é verdade”.
A vida em comunidade, que é comunhão de pessoas, permite-nos olhar a história pessoal e do mundo de forma solidária: “é bom para meus irmãos e para mim, então é caminho de verdade”. Dessa forma, eu não sou ameaça a ninguém, nem sou ameaçado por alguém, não sou “vaquinha de presépio”, mas pessoa em diálogo com pessoas.
O colírio da fé, necessário no Advento, abre nossos olhos para contemplarmos o olhar divino sobre a história: Deus, ele sim, o Criador e Pai, oferece-nos a palavra que gera comunidades: o amor que se multiplica no amor fraterno, materno, filial, esponsal, nunca um pervertido amor interesseiro cuja origem e destino são o meu egoísmo.
O mundo faz o ego agigantar-se, e se gloria disso, enquanto que o amor faz-me pequeno para que possa crescer com todos, partindo dos mais frágeis, numa felicidade que é gerada no sentir minha capacidade de ver o outro a partir de Deus, da comunhão de vida.
Os meios de comunicação são pródigos em apresentar e propagar os egos de artistas, de pretensos intelectuais, como modelos de vida e de comportamento, a oferecerem respostas para tudo em meio a um balé executado ao som de cretinices e pseudo-soluções. Quanto mais escandalosa a resposta, mais animado o bailado. Apresentam resultados de pesquisas como se fossem revelações divinas, numa moda traiçoeira que leva os ingênuos a julgarem que, se a maioria aprova, então está certo. Os dogmas da fé são apresentados como frutos do passado ingênuo e são substituídos por outros dogmas, bem mais exigentes, porque nos colocam na moda: os dogmas das estatísticas, das pesquisas.
O dado matemático suplantou o dado revelado. Deus é excluído da vida e, como não se vive sem algum deus, seu lugar foi ocupado pelo deus do palpite, do vazio interior. Não o Deus que se revela na História humana e cósmica, mas o deus dos prazeres que duram pouco mais que um dia e logo dão lugar a outros. Hoje como ontem: no lugar de Deus que o libertara da escravidão do Egito, o povo de Israel adorou um bezerro feito de ouro. E cantou e se divertiu e blasfemou, esquecendo de olhar as serpentes venenosas que se aproximavam para picá-lo (cf. Êxodo 32, 1-35; Números 21, 4-9). A beleza da serpente escondia seu veneno.

A Palavra de se fez carne

Para curar o cego de nascença, Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra, explicou Agostinho. Ele misturou sua saliva com a terra: para que a cegueira fosse vencida, o Senhor uniu a divindade com a humanidade e, desse modo, o homem recupera a luz de seus olhos unindo a terra ao céu, o divino ao humano e, foi para isso que a Palavra se fez carne e habitou entre nós, para recuperar nossa imagem e semelhança, criando a comunhão Deus-Terra-Homem.
O tempo do Advento é o tempo da memória, tempo da invocação, tempo da espera do Senhor. Memória do que o Senhor realiza pela nossa salvação, invocação para que venha em nós e em toda a criação, espera feliz de sua chegada hoje e na consumação dos tempos, quando virá cheio de glória para julgar os vivos e os mortos.
Não devemos achar que o mundo está bom, que nossa vida já é boa o suficiente. Queremos muito mais, porque o Senhor oferece bens muito superiores e, acima de tudo, queremos que ele venha manifestar sua glória entre nós, conforme sua promessa.
Marana thá! Vem, Senhor! é a mais antiga oração cristã e está inserida na Liturgia eucarística logo após a consagração das espécies: o Senhor vem, e pedimos ainda mais, que venha sempre.
À pergunta “quem é o cristão?” São Basílio Magno responde para nós: “O cristão é aquele que permanece em vigília a cada dia e a cada hora, pois sabe que o Senhor vem”.
Pe. José Artulino Bese

NÓS CREMOS NA VIDA ETERNA

“Se cremos que Jesus morreu e ressuscitou,
assim também os que morreram em Jesus,
Deus há de levá‑los em sua companhia”
(1Tes 4,14).
Finados 2São Paulo divide os homens em duas categorias: os que vivem tristes porque não têm esperança, e os que vivem felizes, porque têm esperança (cf. 1Tes 4, 13ss).
Tem esperança o que sabe que a vida começa em Deus, ultrapassa os poucos anos passados na terra, e em Deus continuará para sempre. O pensamento da morte, então, consola e não desespera, pois sabe que tudo tem sentido, que tudo está orientado para o encontro final da criatura com o Criador. Nada do que realiza é sem importância, pois tudo está orientado para a posse de uma eternidade feliz.
A certeza da ressurreição faz com que o idoso não desanime ao ver que suas forças definham, que serão sempre menos os anos de sua vida. Faz com que o doente irrecuperável tenha um horizonte de vida, além do sofrimento e da morte certa. Faz com que não se desespere diante da morte de uma criança inocente, de um jovem no vigor da mocidade. Porque a figura deste mundo passa, mas a vida permanece para sempre.
O cristão não perde a cabeça diante dos desafios da vida, não perde a alegria de viver, mesmo carregando cruzes pesadas, porque diante de si tem um horizonte onde brilha a Luz que não tem fim. Ele não sabe quais serão seus próximos passos, mas sabe qual será o final: a festa sem fim no Reino de Deus. A sua caminhada pode ser marcada por lutas difíceis, mas tem confiança na vitória final da vida sobre a morte. Tudo passa, somente a vida permanece.
Toda essa esperança, porém, não o faz fugir dos compromissos diante do mundo e da vida. Pelo contrário: o horizonte da ressurreição leva‑o a empenhar‑se com mais vigor para que, já aqui, sinta o gosto da eternidade. Ele sabe que todos ressuscitarão: por esse motivo se esforça para que mais gente caminhe, confortada pela esperança da eternidade. Tendo a certeza da comunhão final com Deus quer, já agora, reunir os filhos de Deus numa grande família.
A ressurreição mostra com clareza a importância da vida: conhecendo o final, não se desviará do caminho que a ele conduz, não empenhará sua existência naquilo que a traça destrói e a ferrugem corrói. Evitará fazer qualquer coisa que o impeça de ver a Luz final.
O homem passará pela experiência da morte, mas não pela experiência do abandono do Deus vivo que o gerou. O Deus que o chama carinhosamente de filho, não o destruirá para sempre. Quer tê‑lo para sempre junto de si; é o Criador buscando ansiosamente o encontro final e definitivo com a criatura.
Por isso conserva viva a esperança, e é feliz. Cristo ressuscitou. Nele a garantia de nossa ressurreição.

A CRUZ – IMAGEM DA TRINDADE E DA IGREJA

cruz-ortodoxa
Através do “Vitória! Tu reinarás! Ó Cruz, tu nos salvarás!” entoamos um hino eslavo que expressa o mistério da derrota e vitória da Cruz. A primeira estrofe não deixa dúvidas sobre a vocação da Igreja: “À sombra de teus braços, a Igreja viverá. Por ti, no eterno abraço, o Pai nos acolherá!”. A Cruz é o abraço amoroso da Trindade. Sem a Cruz, e sem cristãos assumindo a cruz, não há vida na Igreja: apenas a ilusão diabólica de que estar livre da cruz é sinal de amor privilegiado de Deus.
A tentação de Cristo no deserto (cf. Lc 4, 1-13) foi a tentação da fuga da cruz e da apresentação do sucesso como caminho messiânico, tentação de tudo resolver através do milagre, do espetáculo: “Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo; porque está escrito: ‘Ordenou aos seus anjos a teu respeito que te guardassem. E que te sustivessem em suas mãos, para não ferires o teu pé nalguma pedra’ (Sl 90,11ss). Jesus disse: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’ (Dt 6,16)”.
Na Sexta-feira santa, sofrendo as mais atrozes dores e o abandono do Pai, o diabo volta à carga pela boca da multidão: “Que o Cristo, rei de Israel, desça agora da cruz, para que vejamos e creiamos” (Mc 15, 32). Queriam espetáculo! Jesus poderia ter descido da cruz e tudo estaria resolvido. Pelos quatro cantos do mundo se falaria do homem que prometeu morrer, sofreu dramaticamente, tudo em preparação para o grande teatro: descer da cruz poderoso e nos braços do povo sedento por milagres.

A Cruz, imagem da Trindade

Mas, o Senhor não poderia negar a própria identidade: ele é amor, e tudo o que é e faz brota do amor. A crucifixão não é a derrota, e sim, o sinal inequívoco de um amor total na doação: “Quando tiverdes levantado o Filho do homem, então conhecereis que EU SOU (=Deus) e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou” (Jo 8,29).
A doação foi e é a Escola do Pai: alguém pode imaginar que um pai, separando-se do filho para doá-lo em resgate de uma multidão ingrata, sinta prazer? A primeira Cruz foi a do Pai, quando permitiu que seu Filho se despojasse da condição divina para ser igual a nós (cf. Fil 2,6-8). Quando Jesus se retirava para orar, consolava o Pai por sua ausência, e o Pai o consolava em seu abandono filial. Deus Pai esvaziou-se da paternidade e o Filho, da filiação. A Cruz é a imagem da Trindade: nela sofreram o Pai, o Filho e o Espírito Santo, pois o amor sem medida fez as três Pessoas se esvaziarem da comunhão divina.
O amor não é uma festa inocente. Dar o passo para declarar, na verdade, “eu te amo”, supõe enfrentar o sofrimento de se auto-anular: “Presentemente, a minh’alma está perturbada. Mas que direi?… Pai, salva-me desta hora… Mas é exatamente para isso que vim a essa hora. Pai, glorifica o teu nome!” (Jo 12, 27-28). A cada momento de sua vida pública Jesus era tentado a ser infiel ao Pai caindo na ilusão do aplauso dos curados e alimentados. Ao mesmo tempo em que pedia ao Pai ser libertado daquela “hora”, sabia que aquela era a “Hora” da glorificação: o amor teria a última palavra, por toda a eternidade seria impossível amar com mais intensidade do que no Calvário, sinal da grandeza divina capaz de assumir a pequenez total.

A Cruz, imagem da Igreja

Fiódor Dostoiévski, na célebre passagem de Os Irmãos Karamázov (livro V), colocou essas palavras na boca do Grande Inquisidor de Sevilha que reprovava a Cristo a decisão de ter aceito a derrota: “Tu não desceste da cruz porque, mais uma vez, não quiseste alimentar o homem com o milagre, e desejavas ardentemente uma fé livre, e não uma fé dependente de milagres. Ardias por um amor livre, e não a bajulação servil do escravo diante do senhor”. O Inquisidor poderoso temia o Cristo frágil que derrubaria o poder dele.
Cristo quer seus discípulos nutridos de uma fé livre, que se possa expressar num amor livre. A busca do milagre impede a liberdade da fé e a liberdade do amor. A fé e o amor incluem o esvaziamento de si para poder abandonar-se no outro. Assim, o Pai esvaziou-se do Filho para abandoná-lo em nossas mãos. E nós nos abandonamos no Filho que nos entrega ao Pai.
A Cruz permite ao homem a experiência do amor na liberdade, sem a necessidade de milagres. Somente quem participa do sofrimento de Cristo pode participar de sua glória e, deste modo, ser digno da ressurreição. Quando afirmamos que a Igreja é o Corpo de Cristo a contemplamos crucificada, renovando a fidelidade ao Pai e fazendo germinar a Vida nova: a cruz é sinal de sofrimento e de sacrifício, mas também sinal da salvação e da manifestação da glória de Deus. Uma Igreja que despreza a fidelidade da Cruz, e se empolga com a facilidade da estrada do espetáculo, nega a existência de Deus, pois, negando a fecundidade do sofrimento, ridiculariza o Deus Trindade, cuja imagem é a Cruz. Ridiculariza os sofredores do pecado do mundo, pois os considera vítimas do próprio pecado, quando a verdade cristã é outra: todo inocente que morre na sua inocência, carrega os pecados do mundo, e nisso é semelhante a Cristo e unido a ele. Afirmava São Serafim de Sarov: “Onde não há aflição não existe salvação”, pois não é possível a conversão, podemos acrescentar.
Lembro aqui a palavra do papa Francisco na Missa com os Cardeais em 14 de março: “Eu queria que, depois destes dias de graça, todos nós tivéssemos a coragem, sim a coragem, de caminhar na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor; de edificar a Igreja sobre o sangue do Senhor, que é derramado na Cruz; e de confessar como nossa única glória Cristo Crucificado. E assim a Igreja vai para diante”.
Celebrando o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, proclamemos o hino bizantino: “Senhor, tu nos deste a cruz como arma contra o demônio; ele se atemoriza e treme, não tendo coragem de contemplar esta potência que faz ressurgir os mortos e vence a morte; por isso nós veneramos a tua sepultura e a tua ressurreição”.
Pe. José Artulino Bese

O QUE É PERDOAR?

“Não tem compaixão para com o homem, seu semelhante, e ousa pedir o perdão de seus pecados?” (Eclo 28,4)
O Filho Pródigo – Arturo Martini
Perdoar é um dos mais nobres gestos de que é capaz o ser humano. E também um dos mais difíceis. Quem sabe perdoar, praticamente atingiu a perfeição, pois viver sem ódio, sem mágoa, livre de todo ressentimento é possuir a verdadeira sabedoria de viver. Acima de tudo, quem sabe perdoar compreende de modo pleno uma das maiores necessidades do ser humano: ser perdoado sempre. Se errar faz parte da fraqueza humana, ser perdoado é o único caminho para ser redimido do erro. Quem não recebe o perdão, praticamente está impossibilitado de se recuperar. Negar o perdão é condenar o que errou a permanecer no erro.
O que é perdoar? É admitir que a fraqueza humana esteja sempre presente, mesmo na pessoa que vive na mais reta intenção, e que o erro de hoje necessariamente não se repetirá amanhã. Assim, perdoar é oferecer à pessoa um crédito de confiança: “Você errou. Eu o perdôo, ofereço‑lhe uma nova oportunidade. Aquilo que você fez não existe mais. Você é uma nova criatura, com nova chance”.
Como é bom, num momento de fraqueza, receber uma nova oportunidade! Ter gente que confia em nossa recuperação! Quando um pai perdoa ao filho o erro cometido, lhe está dizendo exatamente isso: “Meu filho, você errou. Mas você pode ser diferente. Conte comigo”. Por outro lado, não o perdoando, estará dizendo: “Meu filho, você não tem jeito mesmo. Não conte mais comigo”. É o caminho mais fácil para fazer com que o filho não lute mais para superar as próprias limitações. É condená‑lo a repetir o erro.
Todos nós, praticamente, já vivemos esta gratificante experiência de termos sido perdoados em momentos de fraqueza. Foi esse perdão fraterno que nos deu ânimo para reiniciar o caminho. Por outro lado, também já passamos pela dolorosa experiência de termos errado e não recebido o perdão reanimador. Foi muito difícil, então, recolher forças para recomeçar! Pareceu até que os outros tinham prazer em que permanecêssemos nos erro, em nos ver atolando sempre mais.
Perdoar é reconhecer a quase infinita capacidade do ser humano de se regenerar. Por pior que alguém seja, a chama da bondade nele não está extinta. Basta um pequeno sopro, e a chama brilha com força. Transforma‑se em labareda. Assim como ninguém é totalmente bom, ninguém é totalmente mau.
Perdoar é participar da misericórdia divina, que faz o sol brilhar sobre justos e injustos. Quanto maior o pecado, mais intensa a presença amorosa de Deus. Saber perdoar é ser capaz de realizar o mais divino dos gestos para com o ser humano: o gesto do perdão.

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SANTO INÁCIO

SANTO INÁCIO
martírio célebre no século II foi o de Santo Inácio de Antioquia; no ano 107, no Coliseu de Roma, vítima da perseguição de Trajano (98-117), por ocasião dos gigantescos espetáculos dados por este imperador para comemorar suas vitórias sobre os dácios. Inácio foi condenado juntamente com Rufo e Zózimo.

Cardeal Majella

"Cristo foi batizado, não para ser santificado pelas águas, mas para santificá-las"

ORE SEM CESSAR

Ore sem cessar!!!

Viva a Nossa Senhora Aparecida.













No dia 12 de outubro, comemoram-se três datas, embora poucos lembrem-se de
todas elas: Nossa Senhora Aparecida, padroeira oficial do Brasil, o Dia das Crianças e o Descobrimento da América. Nosso feriado nacional, no entanto, deve-se somente à primeira data, e, embora a devoção à santa remonte aos idos do século XVIII, só foi decretado em 1980.
Há duas fontes sobre o achado da imagem, que se encontram no Arquivo da Cúria Metropolitana de Aparecida e no Arquivo Romano da Companhia de Jesus, em Roma.
Segundo estas fontes, em 1717 os pescadores Domingos Martins García, João Alves e Filipe Pedroso pescavam no rio Paraíba, na época chamado de rio Itaguaçu. Ou melhor, tentavam pescar, pois toda vez que jogavam a rede, ela voltava vazia, até que lhes trouxe a imagem de uma santa, sem a cabeça. Jogando a rede uma vez mais, um pouco abaixo do ponto onde haviam pescado a santa, pescaram, desta vez, a cabeça que faltava à imagem e as redes, até então vazias, passaram a voltar ao barco repletas de peixes. Esse é considerado o primeiro milagre da santa. Eles limparam a imagem apanhada no rio e notaram que se tratava da imagem de Nossa Senhora da Conceição, de cor escura.
Durante os próximos 15 anos, a imagem permaneceu com a família de Felipe
Pedroso, um dos pescadores, e passou a ser alvo das orações de toda a comunidade. A devoção cresceu à medida que a fama dos milagres realizados pela santa se espalhava. A família construiu um oratório, que, logo constatou-se, era pequeno para abrigar os fiéis que chegavam em número cada vez maior. Em meados de 1734, o vigário de Guaratinguetá mandou construir uma capela no alto do Morro dos Coqueiros para abrigar a imagem da santa e receber seus fiéis. A imagem passou a ser chamada de Aparecida e deu origem à cidade de mesmo nome.

Em 1834 iniciou-se a construção da igreja que hoje é conhecida como Basílica Velha. Em 06 de novembro de 1888, a princesa Isabel visitou pela segunda vez a basílica e deixou para a santa uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, juntamente com o manto azul. Em 8 de setembro de 1904 foi realizada a solene coroação da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida e, em 1930, o papa Pio XI decreta-a padroeira do Brasil, declaração esta reafirmada, em 1931, pelo presidente Getúlio Vargas.
A construção da atual Basílica iniciou-se em 1946, com projeto assinado pelo
Engenheiro Benedito Calixto de Jesus. A inauguração aconteceu em 1967, por oca
sião da comemoração do 250.º Aniversário do encontro milagroso da imagem,
ainda com o templo inacabado. O Papa Paulo VI ofertou à santa uma rosa de ouro, símbolo de amor e confiança pelas inúmeras bênçãos e graças por ela concedidas. A partir de 1950 já se pensava na construção de um novo templo mariano devido ao crescente número de romarias. O majestoso templo foi consagrado pelo Papa, após mais de vinte e cinco anos de construção, no dia 4 de julho de 1980, na primeira visita de João Paulo II ao Brasil.

A data comemorativa à Nossa Senhora Aparecida (aniversário do aparecimento
da imagem no Rio) foi fixada pela Santa Sé em 1954, como sendo 12 de outubro, embora as informações sobre tal data sejam controversas. É nesta época do ano que a Basílica registra a presença de uma multidão incontável de fiéis, embora eles marquem presença notável durante todo ano.

A imagem encontrada e até hoje reverenciada é de terracota e mede 40 cm de
altura. A cor original foi certamente afetada pelo tempo em que a imagem esteve mergulhada na água do rio, bem como pela fumaça das velas e dos candeeiros que durante tantos anos foram os símbolos da devoção dos fiéis à santa. Em 1978, após o atentado que a reduziu a quase 200 pedaços, ela foi reconstituída pela artista plástica Maria Helena Chartuni, na época, restauradora do Museu de Arte de São Paulo. Peritos afirmam que ela foi moldada com argila da região, pelo monge beneditino Frei Agostinho de Jesus, embora esta autoria seja de difícil comprovação.

Seja qual for a autoria da imagem ou a história de sua origem, a esta altura ela pouco importa, pois as graças alcançadas por seu intermédio têm trazido esperança e alento a um sem número de pessoas. Se quiser saber mais detalhes sobre a Basílica e sua programação, visite o site www.santuarionacional.com.br, no qual também é possível acender uma vela virtual. E já que a fé, assim como a internet, não conhece fronteiras, eu já acendi a minha, por um mais paz e igualdade no mundo. Acenda a sua e que
Nossa Senhora Aparecida nos ouça e ilumine o mundo, que está precisando tanto de cuidados.

Além da farta pescaria, muitos outros milagres são atribuídos à Nossa Senhora Aparecida. Veja alguns abaixo:
A libertação do escravo Zacarias
O escravo Zacarias havia fugido de uma fazenda no Paraná e acabou sendo
capturado no Vale do Paraíba. Foi caçado e capturado por um famoso capitão
do mato e, ao ser levado de volta, preso por correntes nos pulsos e nos pés,
e como passassem perto da capela da Santa, pediu permissão para rezar diante
da imagem. Rezou com tanta devoção que as correntes milagrosamente se
romperam, deixando-o livre. Diante do ocorrido, seu senhor acabou por
libertá-lo.

O cavaleiro ateu
Um cavaleiro que passava por Aparecida, vendo a fé dos romeiros, zombou
deles e tentou entrar na igreja a cavalo para destruir a imagem da santa. Na
tentativa, as patas do cavalo ficaram presas na escadaria da igreja. Até
hoje pode-se ver a marca de uma das ferraduras em uma pedra, na sala dos
milagres da Basílica Nova.

A cura da menina cega
Uma menina cega, ao aproximar-se, com a mãe, da Basílica, olhou em direção a
ela e, de repente, exclamou "Mãe, como aquela igreja é bonita." Estava
enxergando, perfeitamente curada.

NILTON

O salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Romanos 6:23


TERESA DE CEPEDA Y AHUMADA

TERESA DE CEPEDA Y AHUMADA
Teresa de Cepeda y de Ahumada (nasceu em Ávila em 1515) guiada por Deus por meio de colóquios místicos e por seu colaborador e conselheiro espiritual são João da Cruz (reformador da parte masculina da ordem carmelita, empreendeu aos quarenta anos uma missão que tem algo de incrível para uma mulher de saúde delicada como a sua: do mosteiro de são José, fora dos muros de Ávila, primeiro convento do Carmelo por ela reformado, partiu, carregada pelos tesouros do seu Castelo Interior, para todas as direções da Espanha.